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Baixa autoestima: porque “gostar de si” não chega

Marta Vilela Guimarães · 14 jul. 2026 · 8 min de leitura

Baixa autoestima: porque “gostar de si” não chega

Pode saber, no papel, que é competente, que é amado, que não fez nada de errado — e ainda assim sentir, algures no corpo, que não é bem suficiente. As provas não chegam ao sentimento. Junta conquistas e elas não se fixam; uma única crítica desfaz uma boa semana; espera pela aprovação dos outros para conhecer o seu próprio valor, e detesta que espere. Se isto lhe é familiar, o mais importante a compreender é que não é um defeito do seu carácter. É algo que aprendeu.

Dizem-nos, sem parar, que a autoestima é um projeto solitário: goste primeiro de si, repita a afirmação, olhe-se ao espelho e acredite. Para a maioria das pessoas, isto simplesmente não resulta — e depois sentem-se um fracasso também nisso. Mas há uma razão para não resultar, e não é falta de esforço. É que a autoestima nunca se construiu sozinho, para começar.

De onde vem realmente a autoestima

Muito antes de poder pensar sobre si, aprendeu quem era a partir da forma como foi visto. Um bebé não sabe que é digno de amor até ser amado; uma criança aprende o seu valor nos rostos que se iluminam, ou não, quando entra na sala. Ser motivo de alegria ensina “sou digno de alegria”. Ser criticado, ignorado, ou amado só quando útil ensina outra coisa — mais silenciosa e mais duradoura. A voz interior dura que carrega não é, muitas vezes, a sua própria conclusão; é um eco, uma relação antiga que interiorizou e guardou. O que significa que a baixa autoestima não é a verdade sobre si. É uma lição que lhe foi ensinada.

Porque “gostar de si” não lhe chega

Se a crença se formou na relação, antes das palavras, então só com palavras é difícil mudá-la. Pode repetir “sou suficiente” cem vezes e continuar a não o sentir, porque está a falar com uma parte de si que nunca aprendeu pela linguagem — aprendeu pela experiência, por ser acolhida ou não. É por isso que as afirmações tantas vezes ressaltam, e que as pessoas de aparência mais confiante podem ser secretamente governadas pela vergonha. A ferida é relacional; um slogan não é.

Por onde pode começar

  • Quando a voz crítica falar, pergunte de quem é, afinal, essa voz. Siga o tom — as palavras exatas, o desprezo ou a frieza — até onde o ouviu pela primeira vez. Nomear a origem começa a afrouxar-lhe a autoridade.
  • Separe “sentir-se sem valor” de “não ter valor”. O sentimento é informação antiga a passar em diferido; não é um relatório atual sobre o seu valor de agora.
  • Repare na diferença entre como fala consigo e como falaria com um amigo na mesma situação — e, de propósito, empreste a voz do amigo.
  • Observe como lida com o cuidado e os elogios. A baixa autoestima filtra-os em silêncio; pratique deixar um entrar, em vez de o afastar.

Estas práticas ajudam a ver o padrão e a baixar-lhe o volume — trabalho real e útil. Mas uma autoestima que se construiu na relação também se reconstrói na relação. Ser visto, valorizado e acolhido de forma consistente — incluindo na relação firme e honesta da terapia — escreve, aos poucos, a nova lição que só as afirmações não conseguiram. Não é que alguém o convença de que é suficiente; é que, com o tempo, tem a experiência de ser tratado como se fosse, até a crença antiga ter de abrir espaço. Muitas vezes a mesma raiz aparece nas relações que repetimos.

Se a voz dura lhe sabe a casa, e já tentou resolver a sua autoestima sozinho sem que aguentasse, isso não é fracasso — é um sinal de onde o trabalho realmente vive. Uma primeira sessão é um lugar para começar, sem compromisso de continuar. Em caso de crise ou de necessidade de ajuda imediata, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou os serviços de emergência.

Perguntas frequentes

Porque é que “gostar de si próprio” não resulta na baixa autoestima?
Porque a autoestima não se construiu com palavras, para começar. Formou-se cedo, através da forma como foi visto e tratado, antes de poder pensar em linguagem. As afirmações falam à mente que pensa, mas a crença vive mais fundo — por isso repetir “sou suficiente” muitas vezes não lhe chega.
O que causa a baixa autoestima?
Costuma ser aprendida, não inata. Uma criança vista e valorizada de forma consistente aprende que merece ser valorizada; uma que foi criticada, ignorada, ou amada só quando útil aprende outra coisa. A voz interior dura é muitas vezes um eco de uma relação precoce, não a verdade sobre si.
A terapia ajuda com a baixa autoestima?
Sim. Como o valor próprio se formou na relação, também se reconstrói na relação — ser visto e valorizado de forma consistente, incluindo na relação firme da terapia, escreve aos poucos uma nova lição que só as afirmações não conseguiram.

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A primeira sessão é sem compromisso de continuar.